O alargamento da UE a leste fez da Rússia um seu vizinho imediato, com um potencial de desenvolvimento ímpar pelas suas capacidades de criação de riqueza, recursos naturais e dimensão geográfica.
Com o Presidente Putin a política externa da Rússia confirmou a sua aproximação aos países ocidentais e a Rússia vai-se inserindo progressivamente no seio das instituições económicas mundiais, sendo actualmente membro de pleno direito do G7 e encontrando-se em fase de negociação para aderir à Organização Mundial de Comércio.
A sua credibilidade também como potência económica vai-se afirmando e a Rússia constitui hoje uma enorme esperança para as suas populações e o maior mercado de aposta de todas as economias ocidentais alvo, como consequência disso, do interesse das empresas de todo mundo.
Um país com uma história, cultura e civilização próprias, caminha agora para o progresso do seu povo com medidas cautelosas mas seguras, rumo à internacionalização da sua economia.
Relações com Portugal
É necessário que Portugal acorde para as inúmeras oportunidades que este gigante, até agora adormecido, vai proporcionar com o desenvolvimento da sua economia.
O mercado russo continua a ser um grande mercado de absorção de bens de consumo e, cada vez mais, também de bens de investimento.
Na maioria dos sectores onde a nossa oferta tem qualidade, dispomos de capacidade para conquistar uma quota do grande mercado russo, hoje já trabalhado por todos os nossos concorrentes sectoriais. O nosso caminho é por isso mais difícil, aliado à distância e à dimensão da maioria das nossas empresas.
Necessário se torna para estas pequenas empresas, uma abordagem do mercado preferencialmente agrupadas, por forma a não só disporem de uma maior capacidade de oferta, mas principalmente de maior solidez financeira.
As Associações empresariais têm aqui um papel importante, não só no approach ao mercado, mas também no agrupamento das mesmas, concentrando a oferta e preparando programas para o mercado, obviamente com o apoio da Delegação do ICEP em Moscovo.
Com a liberalização do mercado, perspectiva-se para os próximos anos um crescimento das nossas exportações para a Rússia, como resultado das acções promocionais realizadas e pelo crescente interesse manifestado pelos nossos empresários.
Porque os diversos sectores da economia russa têm sentido os ventos da mudança e consequentemente o progresso dos mesmos, passemos em análise alguns daqueles que, face à nossa capacidade de intervenção, são ou deveriam ser uma aposta das nossas empresas, das nossas Associações empresariais e do ICEP, na tentativa de internacionalização e implementação de uma política eficiente de abordagem ao mercado da Rússia.
Embora a dimensão da Rússia e as suas especificidades não tornem este mercado facilmente abordável para muitos sectores nacionais, alguns existem nos quais Portugal pode conquistar quotas de mercado importantes: cortiça, calçado, confecções, têxteis-lar, vinhos, materiais de construção, alguns produtos alimentares, mobiliário e produtos para a casa, moldes, construção civil e obras públicas e, obviamente, o turismo. Nestes sectores alguns bons resultados têm sido obtidos pelas empresas portuguesas e espera-se que cresçam significativamente no futuro.
Cortiça – Os produtos de cortiça, especialmente as rolhas, fazem parte do grupo de mercadorias de que continuamos a ter preferência na Rússia. O trabalho desenvolvido durante anos e a capacidade negocial das nossas empresas neste sector possibilitaram atingir objectivos e desencadear estratégias que nos garantem uma permanência cada vez mais forte no mercado russo.
Calçado – Ao longo dos anos 90 foi criada uma estrutura de comercialização que permitiu que as exportações portuguesas deste produto viessem a registar um crescimento sustentado. No entanto, a estrutura envolvendo grandes investimentos em stocks e a crise que se registou em 1998 (clientes que deixaram de pagar porque as suas contas bancárias foram congeladas, redução drástica da procura devido à diminuição do poder de compra da população), estrangulou as empresas dependentes desses canais de comercialização. A partir daí as empresas portuguesas passaram a tomar cuidados redobrados no mercado, o que se reflectiu também numa redução das exportações de calçado português para a Rússia. Sector com grandes potencialidades de desenvolvimento, onde se deverá apostar no segmento qualidade, na criação de estruturas próprias de comercialização e distribuição.
As empresas começam agora a reaparecer e com a APICCAPS julgamos ser possível uma abordagem mais qualitativa do mercado.
Confecções – A concorrência neste sector é enorme, sobretudo de produtos de baixo preço provenientes de países conhecidos de dumping social ou de produtos de marca. Portugal não pode corresponder ao primeiro parâmetro e não se tem envolvido no segundo. No entanto, o poder de compra da população tem vindo paulatinamente a aumentar e nesta situação as confecções de marca adquirem importância e passam a ser um produto com potencialidades; falta realmente levar a cabo acções no mercado que prestigiem a nossa oferta.
Acreditamos que a participação portuguesa, através da ANIVEC/APIV na próxima Feira da Moda em Moscovo, iniciará um novo ciclo neste sector para o mercado russo.
Têxteis-lar – O mercado está em franco desenvolvimento, a produção russa é de baixa qualidade e com o aumento do nível de vida da população aumentam as capacidades de aquisição de produtos de qualidade. Actualmente as grandes superfícies localizam a maior oferta, sendo a Turquia e os países asiáticos quem mais vende no mercado. Recomenda-se aqui visitas mais frequentes por parte das empresas portuguesas e uma abordagem mais alargada a nível de Associação do sector. A criação de estruturas próprias em Moscovo responderia à capacidade absorvente do mercado e garantir-nos-ia o controle da comercialização e distribuição dos nossos produtos que pela qualidade e design têm sem dúvida enormes possibilidades.
Materiais de construção – Nos últimos tempos alguns produtos do sector têm sido vendidos no mercado, nomeadamente, cortiça, mármores e granitos. No primeiro caso, a permanência do Grupo Amorim no mercado e os contactos que este possui na Rússia permitiram-lhe obter alguns contratos. No segundo caso a cooperação das empresas portuguesas com parceiros estrangeiros de construção civil (sobretudo turcos) permitiu o fornecimento de materiais de construção para determinados projectos. No entanto, devemos destacar que Moscovo, a região mais dinâmica em termos de construção, tem criado numerosos obstáculos à utilização de materiais de construção estrangeiros (o próprio governo da cidade de Moscovo continua a ter participações em muitas empresas na Rússia, incluindo de materiais de construção).
É um sector em franco desenvolvimento com grandes potencialidades, mas onde se justifica, por precaução, garantir de antemão canais de distribuição e parceiros credíveis.
Produtos alimentares – As empresas portuguesas, durante alguns anos, forneceram com sucesso produtos alimentares para a Rússia. Contudo, algumas delas deixaram de ter capacidade de competirem com a concorrência ou ficaram condicionadas ao levantamento de imposições sanitárias (carnes e enchidos), outras preferiram utilizar estruturas criadas em países vizinhos para trabalharem no mercado russo (produtos de confeitaria), o que se reflecte em termos estatísticos, numa diminuição das exportações portuguesas destes produtos e num aumento das exportações de outros países. O azeite, as conservas de peixe e as azeitonas são subsectores que, através da participação em feiras da especialidade, teriam hipóteses de vingar no mercado. Prevê-se a participação, em 2005, da AEP na Prodexpo com o apoio do ICEP, dando continuidade ao approach do ano passado.
Vinhos – No sector dos vinhos do Porto o mercado tem vindo a mostrar uma certa apetência pelos produtos portugueses, enquanto nos vinhos de mesa (salvo raras excepções) as empresas portuguesas só agora se começam a interessar pelo mercado. Umas vezes, porque a representação é concedida a grupos internacionais que definem os produtos prioritários a promover no mercado e que criam obstáculos a outros produtos que teriam alguma perspectiva de virem a serem colocados no mercado, outras vezes, porque as empresas portuguesas conhecem a forma de trabalhar dos importadores russos. Muitos vinhos que aparecem no mercado são importados a granel e engarrafados na Rússia (o que justifica que a maior porte dos vinhos vendidos e consumidos no mercado sejam, sobretudo, de baixa qualidade), metodologia esta que as empresas portuguesas recusam. Haverá que realizar acções de sensibilização no mercado, com participação em Feiras e realização de Provas de Vinhos.
Mobiliário e artigos sanitários – A distância que separa os dois países, com efeitos nos custos de transporte, poderia deixar adivinhar que estes produtos não teriam perspectivas no mercado. Tal não acontece. Contudo, os grandes projectos em que os nossos concorrentes têm estado envolvidos enquadram participações integradas envolvendo a construção civil e a dotação de artigos de interiores para o recheio dessas unidades imobiliárias. Os custos mais elevados para a aquisição de produtos portugueses comparativamente aos produtos espanhóis e italianos são também um obstáculo para as empresas portuguesas, que deparam com a falta de canais de comercialização próprios que lhes permitam reduzir os riscos de falta de pagamento no mercado.
Construção civil e obras públicas – É seguramente o sector de maior impacto na economia da Rússia onde os investimentos a levar a cabo serão de maior vulto e, consequentemente, existem grandes hipóteses para as empresas que quiserem ou puderem estar presentes no mercado.
A Rússia necessita de preparar legislação que permita diminuir riscos e conseguir atrair mais investimento estrangeiro, para levar a cabo o desenvolvimento de infra-estruturas indispensáveis ao crescimento e modernização da sua economia. Torna-se imperativo melhorar ou construir cerca de um milhão e meio de quilómetros de estradas, terminais, aumentar o número de aeroportos de pequena dimensão e manter o elevado crescimento no sector da construção de habitações.
São sectores importantes também para as nossas empresas que, caso estejam interessadas, poderão beneficiar deste enorme boom em perspectiva.
As iniciativas neste sector passam pelo envolvimento mais participativo das principais Associações sectoriais, pela sensibilização das empresas para as potencialidades do mercado de construção e obras públicas da Rússia, pela aquisição e distribuição da informação disponível, pelo envolvimento das entidades oficiais russas nas nossas diligências no mercado.
Uma cooperação mais estreita com o governo da cidade de Moscovo poderia não apenas ser conveniente mas indispensável para incrementar o relacionamento das empresas portuguesas na Rússia. Um sector a ser mais trabalhado pelas empresas e Associações do sector, mas com grande capacidade de desenvolvimento.
Moldes – O desenvolvimento dos sectores automóvel, electrónico, electrodomésticos e dos produtos de plástico de grande consumo, trouxe novas oportunidades ao mercado russo no que respeita à viabilidade de negócios para empresas portugueses do sector. O know-how tecnológico português é conhecido internacionalmente e este sector, como resultado da evolução do mercado em oferta de bens de consumo e de poder de compra das populações, vai evoluir. Para os sectores electrónico e automóvel, as empresas de moldes em Portugal, podem acreditar no mercado, visto a concorrência local nacional não estar em condições de apresentar soluções técnicas.
Mas esta nova etapa, passa pela implementação das nossas empresas no mercado russo. O desenvolvimento industrial deste país vai obrigar a timings que só dessa forma é possível manter.
Investimento
Sem que a política de investimentos da Rússia combine cinco factores, a saber:
- a limitação da fuga capitais;
- o desenvolvimento do sistema financeiro russo para alargar as fontes de financiamento;
- a reforma fiscal, permitindo uma redistribuição dos lucros;
- o estímulo às políticas de apoio ao investimento estrangeiro, orientadas para a transferência de tecnologia;
- mais sólidas e melhores garantias aos investidores.
Não é possível tornar o mercado apetecível para os investidores directos estrangeiros, que na maioria das vezes não têm confiança nas condições oferecidas. Os países vizinhos que agora aderiram a UE, estão, de facto, em melhores condições para atrair o investimento estrangeiro do que a Rússia e daí algum alheamento do capital ocidental em relação a este mercado, excepção feita aos grandes projectos.
Turismo
O desenvolvimento do turismo russo para Portugal, além de estar concentrado em duas cidades – Moscovo e São Petersburgo –, tem dependido fortemente da capacidade financeira das empresas russas que promovem Portugal e dos transportes aéreos disponíveis. Apesar do grande número de operadores turísticos e agências de viagens que trabalham com Portugal, salvo raras excepções, trata-se de empresas com pequena capacidade financeira que as impede de promover de forma intensiva o destino. As poucas excepções consideram o destino Portugal como um suplemento não incluído no core business sua actividade principal.
Igualmente, a fraca capitalização destas empresas não permite a organização de voos charters, operações que envolvem normalmente um investimento inicial relativamente elevado. Alguns dos agentes turísticos formaram o Portugal Travel Club com o objectivo de aproveitar sinergias, reduzir custos e intensificar a sua actividade de marketing com o consequente reforço financeiro global.
É um mercado em grande crescimento e que Portugal incompreensivelmente não aproveita e, mais do que isso, deixou de investir.
O Euro 2004 deixou perspectivar para 2005 um ano de aumento significativo da quota de turistas russos que irão preferir o nosso País para férias. É necessário contudo agilizar o período de concessão de vistos nos nossos serviços consulares, para podermos ser competitivos com os nossos principais concorrentes.
Esta barreira e a falta de uma transportadora aérea que ligue Moscovo a Lisboa em voo sem mudança de avião, poderão ser decisivos na abordagem que os russos irão fazer ao mercado português no próximo ano. Sabendo nós que os voos que efectuava a Aeroflot entre Lisboa e Moscovo eram rentáveis e que, apesar disso, a ligação foi cancelada e o acesso ao trajecto a outras companhias foi vedado, percebe-se assim que outros parâmetros estão em causa, para além da rentabilidade.
Resumindo, Portugal dispõe de uma oferta credível e de qualidade em grande número de sectores que necessitando de mercados alternativos, não se podem alhear do facto da Rússia se ter tornado o maior mercado europeu, onde as oportunidades não se limitam só a Moscovo ou São Petersburgo, mas se espalham por uma área geográfica enorme, na maior parte das vezes pouco trabalhada pelas empresas ocidentais.
Ernesto Martins
Delegado do ICEP